Serás tu a carruagem de um comboio?

Nós somos apenas uma carruagem de um comboio. No início vazia, parada na estação de partida, à espera que alguém (a mãe) faça força para arrancar. É o nascimento da viagem. O primeiro trilho já está traçado, uma linha de ferro que é visível até lá ao longe.


O comboio arrancou e a carruagem começa a mover-se, depois a andar. Mas depressa chega a outras estações, onde tem de parar. No princípio as paragens eram curtas. Contavam-se pelos dedos das mãos as pessoas que aguardavam pela nossa chegada, pela chegada da nossa carruagem. Cada uma delas segurando um pacote, quase inocentes.


O comboio vai parando, e nós, a carruagem, somos obrigados a parar também. E quem está na estação abre a nossa porta e cuidadosamente larga a sua caixa que tão pacientemente segurava nas mãos. Essas caixas que as pessoas largam, embora pareçam pequenas, são pesadas. São pensamentos, preconceito, discriminação… E nós somos obrigados a guardar tudo na nossa carruagem porque ainda não temos escolha.


Por enquanto são apenas depositadas algumas embalagens, o espaço livre da nossa mente ainda é grande. Mas depressa há cada vez mais estações na nossa vida. E cada vez mais estas estações estão repletas de pessoas, agora mais impacientes, com ânsia até de despejar na nossa carruagem os seu pontos de vista, tentando influenciar o motorista do comboio para onde nos levar.


A nossa carruagem vai agora cheia, já sobra pouco espaço daquilo que outrora ela tinha sido. E as pessoas, essas, já não pousam a sua bagagem apenas na carruagem, mas também no próprio trilho do caminho de ferro, à espera que o nosso comboio tropece. E às tantas, já eram tantos os obstáculos, que o comboio parou. E havia a ilusão de que nós, a carruagem, já nada podia fazer se não parar também.


Mas esta carruagem não era mais uma na fila deste comboio eterno. Olhou para o lado, e para o outro, e viu pela primeira vez tudo aquilo que existia para lá do caminho de ferro que continuava apenas em linha recta. Contudo, como iria a carruagem andar para a esquerda ou direita se o trilho desenhado para si apenas seguia em frente? Os seus pés não encaixavam naquele chão.


Então ela imaginou com muita força que tinha uns patins e começou simplesmente a patinar: no deserto, nas montanhas e no oceano. E as outras carruagens, que iam atreladas ao mesmo comboio, começaram a chorar. Como é que NUNCA ninguém lhes tinha dito que elas podiam patinar?



Diana Morais de Carvalho (Princesa Diana)

@dianamdecarvalho





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